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Tempos outros!...



   Nasci no ano de 1964. Portanto, não cheguei a conhecer de perto os “anos de chumbo” da ditadura militar. Entretanto, alguns resquícios ficaram guardados na memória do tempo de criança, lá pelos meados e quase fim da década de 70.
   Meu pai não era muito simpático à política. Sempre foi reservado nesta questão, embora, claro, tivesse as suas convicções e, em verdade, sempre foi um influenciador de votos na casa.
Na época, tínhamos o bi-partidarismo (extinto em 1979). De um lado a Arena, que hoje seria rotulado de partido de direita e conservador e, de outro, o MDB, representando a esquerda rotulada de radical. Dizia-se, até, que havia comunistas infiltrados, aqueles que devoravam crianças. Por essa razão, tínhamos um pouco de medo dessa turma. Mas, era como se fazia o terror na época.
   Morávamos na Praça das Mães. Nossa casa tinha duas janelas grandes que davam vista para o local, onde passávamos boa parte do dia (depois da escola e dos deveres de casa, claro!) brincando com a turma. Era um lugar frequentado por crianças e adolescentes de todas as classes sociais, de todas as cores e religiões. Crianças e Adolescentes desprovidos de discursos. Na verdade, sequer sabíamos ao certo o sentido da política e da ideologia.
   Durante muito tempo a Praça das Mães foi palco dos grandes comícios de Anápolis, em anos eleitorais. Tinha um espaço que era feito de palanque e, na época, era permitido que se levasse artistas para atrair público e abrilhantar o encontro. De tal forma que os comícios viravam atração e a praça ficava completamente tomada. Cada concorrente e cada partido queria levar mais gente. E haja foguete para fazer ainda mais barulho!
   A gente via tudo da janela de casa e, às vezes, íamos “sapear” no próprio local, passando no meio daquela gente toda empolgada com os discursos inflamados, entremeados por pedidos de votos dos candidatos. As bandeiras empunhadas pelos cabos eleitorais davam um colorido especial à festa.
Em casa, sempre gostamos de música. Havia uma radiola (como a gente chamava) que era bem grande, com caixas de som potentes para a época. Tínhamos dezenas de discos de vinil, dos mais variados gostos e gêneros musicais: MPB, música clássica, música italiana, chorinho, samba, rock. The Beatles era (e até hoje é) uma unanimidade na família. A música dos “Reis do Iê, Iê, Iê” tocava em alto e bom som. Quando adolescente, até adotei um corte de cabelo parecido com o dos “rapazes de Liverpool” e, sempre que ia ao salão do Jair, no centro da cidade, me pediam para cantar alguma música e assim eu fazia, com um inglês meio sofrido.
   Mas, tinha um compacto que gostávamos muito e que não era muito do gosto de nosso pai, porque era uma música politizada, de um tal Geraldo Vandré. Na verdade, era uma música muito carregada de sentimentos e, até, certa dose de tristeza.
   A canção de Vandré era como uma espécie de chamamento aos jovens, em relação ao momento que o Brasil vivia. Por isso, era meio “subversiva” para alguns. A mais famosa, tinha o refrão: “Vem vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora, não espera acontecer!” Era como se fosse um hino. E, sempre que dava, a gente tocava o compacto e abria a janela. E muitas vezes, éramos repreendidos. Mas, em verdade, não havia nenhuma intenção de fazer qualquer instigação política. Era mais para fazer algo “errado” para sentir o gosto dessa aventura.
   Foi um retrato de momento, de um tempo da história que ficou guardado na memória. Geraldo Vandré fez belas canções e, certamente, merece reconhecimento pela sua contribuição à cultura do País. A democracia foi restaurada na década de 80, depois do movimento das Diretas-Já! Nós mudamos da Praça das Mães. A praça mudou, porque deixou de palco dos comícios; deixou de ser mais frequentada, por causa da violência. Mas continua lá com sua beleza e as suas histórias.
   E nós deixamos para trás a inocência, de querer que os outros pudessem ouvir da nossa janela: “Para não dizer que não falei das flores”.





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